O vencedor

Perca seu tempo. Sim, ele é valioso mas ás vezes é preciso perdê-lo. Na verdade, depende da perspectiva. Agradeço pelas coisas nesse mundo sempre tenderem à relatividade. Uma constatação: meu raciocínio não é linear, vivo esbarrando nas coisas que vejo, leio, escuto, observo e, principalmente, sinto antes de esboçar qualquer tipo de reação à ele. Processar tudo isso, que é sim bastante pra minha limitada capacidade, leva um certo tempo. Por isso sou lenta pra maioria das coisas, por isso permaneço quase sempre calada. E isso é apenas auto-conhecimento, quase que forçado, por conta dos desdobramentos que essa não linearidade impuseram à mim. Pura incapacidade de lidar. Sensação de vazio e incompletude mesmo cercado por gente em todos os cantos e muita informação. Ah, a ironia que os paradoxos desse mundo moderno carregam! É preciso ir contra a maré algumas vezes, contrariar todas as expectativas. Pressão social te comprime e só te comprime mesmo. Alguma realmente querendo a sua expansão como ser e de visão de mundo? As coisas precisam se assentar, principalmente as interiores. Isso leva tempo. Para cada coisa diferente, um tempo diferente. E não existe lógica que estabeleça como isso varia de pessoa pra pessoa. É um processo de constante descoberta, porque estamos sempre em constante mudança, ou pelo menos deveríamos ter o cuidado de estar. Enquanto escrevo o replay do celular está ligado e já perdi as contas de quantas vezes ouvi ‘Lonelily’ do Damian Rice. Era hora de perder tempo, continuar a vida caminhando, apático, em círculos delimitados por condições impostas ou pré estabelecidas é perder a própria vida. Paradoxo. Aprendi mais jogando tempo fora que em todos os semestres de cálculo na faculdade. Paradoxo de novo. Desenvolvimento pessoal, desenvolvimento pessoal minha gente não pequem como eu. Todas as coisas estão conectadas de alguma forma, equilíbrio é fundamental. Perca mais seu tempo e não a vida, e aqui me refiro ao sentido mais esplêndido que ela pode ter.

Cheira a mofo

Cheira a mofo, talvez este seja o cheiro da solidão. A rua aqui de casa às vezes me faz lembrar o cotidiano da cidade pequena. No bar da esquina, toda vez que passo, os mesmos frequentadores. Entre eles, um me intriga. Antes de me mudar pra cá, um senhorzinho perambulava pelas ruas do meu antigo bairro revirando o lixo deixado de fora das casas. Ele recolhia papelão e o que mais fosse interessante. Sempre apressado, vestindo roupas amassadas e às vezes de pés no chão. O cabelo desgrenhado e a barba grande escondiam o seu rosto. Ele nunca me olhava nos olhos. Baixo, de corpo franzino, parecia sempre ter algo importante a fazer. Era admirável o seu empenho com o trabalho. Morava numa casinha simples ali perto, de muro curto e portão improvisado.

Dia desses, eu estava voltando para casa quando vi de longe alguém caminhando desnorteado. Já se fazia noite no sossego da minha rua e uma voz feria o silêncio recitando passagens bíblicas e coisas, para mim, desconexas. Ele falava como se falasse para uma multidão e se portava como uma espécie de profeta que se revelava a ela. Era o senhorzinho, evitei olhá-lo nos olhos. Ele me pareceu angustiado e os seus passos carregavam certo desespero em, porventura, não ser compreendido. Disseram que talvez ele pudesse ser esquizofrênico.

Eu precisei me mudar de lá. Eis que passo pelo bar da esquina da minha nova rua e encontro novamente o senhorzinho! Dessa vez de cabelo bem cortado e barba aparada. Continuava usando roupas simples, porém limpas. Agora, além de me olhar nos olhos, ele acena com um sorriso acanhado. Fica sempre sentado do lado de fora com as pernas cruzadas olhando a vida passar. Trata-se de um rosto bonito, cabelos grisalhos e rugas trazidas pela vivência. O olhar é sereno, ele está em paz. Tenho a impressão de que ele zela pela harmonia da minha rua.

Quando passo pelo bar da esquina, cumprimento com um sorriso o senhorzinho. Mesmo o bar estando fechado, pela manhã, outro senhor também está sempre por lá. Este é negro, tem os olhos esbugalhados e sofridos. Veste uma camisa abotoada até a metade, calça chinelo um número abaixo do seu tamanho e tem o corpo do fiel escudeiro do Dom Quixote. Os dias parecem apenas passarem por ele. Traz consigo uma tristeza profunda que deságua no seu santo copo de cachaça diário.

Depois de ver o senhorzinho e o Sancho Pança, já no quarteirão de casa, passo por uma calçada que tem uns dois ou três bancos. Tem sempre alguém sentado ali, mas nunca me atrevi, nem eles, a deixar um sorriso de cumprimento. Já no fim do meu trajeto, passo por um homem de meia idade muito simpático. Somos quase vizinhos e ele está sempre de bem com a vida. Tanto é que ele sempre me diz bom dia e acena com um sorriso que contrasta o branco dos dentes com a sua pele negra.

Meu universo platônico se refugia aqui em casa, entre livros de física e matemática da faculdade, um cd do Chico, esboços de músicas inacabadas e versos despretensiosos. Há também uma coletânea de sonetos que ainda não li do Neruda, um bocado de livros velhos que comprei no sebo e o violão que fica ao lado da minha cama. Tudo circundado pela minha imaginação e abafado pela minha voz fraca. Cheira, constantemente, a mofo.

Chá

O vapor quente sobe levemente pelo meu rosto. É bebida com gosto de calmaria. Descobri que aprecio chá, capim cidreira tem um gosto bom. É tempo de reflexão, tenho descoberto mais a meu respeito. Um achado foi importante: não sei quase nada de mim. É verão, mas agora, pela madrugada, o tempo está agradável e trouxe com ele um cheiro bom. Talvez chova, embora amanhã, irremediavelmente, faça muito calor. Talvez eu deixe escapar algumas lágrimas, embora amanhã, costumeiramente, um sorriso pendurar-se-á.

Prevalece, de forma magistral, o silêncio. Tanto que o tic-tac constante do relógio se juntou a ele. Todos já foram dormir. Estou sentada na varanda, na penumbra deixada pela luz acesa da cozinha. Posso enxergar um pedaço do céu. Não sei exatamente o que me amedronta. Ás vezes, a própria vida. Procuro por respostas que eu nem sei se existem. Prevalece quase infindável, a existência. Tanto que nossa brevidade se soma a ela para compor a sua continuidade.

Há um cinzeiro em cima da mesa, se me agradasse eu acenderia um cigarro agora. Gosto do barulhinho do lápis percorrendo o papel e de vê-lo preencher esse pedaço em branco. Assim, me preencho também. Mais chá. A fumaça agora passa pelos meus olhos, leve como a leveza de ser. Não tenho muito controle sob minha imaginação, quando dou por mim já idealizei tudo. Há um mundo de possibilidades dentro de mim, se me contentasse eu ficaria presa só a esse, onde existe gravidade.

(in) tangíveis rubores

Caia sobre mim seu corpo e todas as previsões meteorológicas.
Cale-se das imundices humanas, exceto a que nos corta.

Caiba no espaço que sobra qualquer amor e todas as medidas provisórias.
És tú, corpo, casa deste ser que vigora. Ponto!

Clareia a via sacra pelos teus cabelos, pela sua boca e pelos pudores insólitos.
Contenha-se dos pecados infames, mas não agora.

Do que está posto e do que já foi deposto até hoje resta o que sempre esteve:
abstenha-se de todos os entraves imbecis e retrógrados.

Quintal

Descobri que o mundo é maior que o quintal da minha casa. De lá, eu imaginava como as coisas seriam aqui fora, queria saber como seria botar meus pés em outro chão. Tudo era tão previsível que me sentia angustiada. Eu precisava de mais, achava que sair daquilo que me rodeava repetidamente me faria mais livre. Descobri que tudo é bem mais simples do que eu imaginava: estar na maior cidade do mundo pode ser tão libertador quanto estar no quintal lá de casa. Não há lugar no planeta que possa tolher alguém liberto de si mesmo. O mundo se expande na medida em que expandimos nosso universo interior.

Eram olhos azuis

Eram olhos azuis, azul de calmaria. Pareciam pedir clemência. Pareciam encapsular o próprio sofrimento, mas lá no fundo havia um fiasco de esperança. Compunham um rosto já atormentado, apesar da juventude. As roupas eram tão abatidas quanto sua fisionomia. Ele estava sentado, de pernas cruzadas e com uma presilha rosa no cabelo. Ao seu lado estava uma senhora com os mesmos traços do rapaz, deveria ser sua mãe, eu pensei. Ela segurava uma bíblia na mão como quem segura a própria verdade. Retirava os óculos para limpar seus olhos que, de longe, pareciam marejados. Apesar do ar senhoril, havia nela uma amargura. Uma amargura que desembocava no elo entre os dois naquele momento, o sofrimento. Era tão forte que parecia sobrepor o verdadeiro sentimento que os une. Eu estava parada e não pude deixar de notá-lo. Ele também me olhava. Eu quis dar-lhe um sorriso de cumplicidade e quando decidi fazê-lo, o sinal abriu. Eram olhos azuis, azul de calmaria, que clamavam por amor.